Oficina de Reciclagem de Sucata
Laranjal do Jari Amapá
Christianne Rothier 11 a 15 de Dezembro de 2001
A convite da SANS - Sociedade Amapaense para a Natureza e Solidariedade - fui para Laranjal do Jari, no Amapá, para orientar uma oficina para a garotada do Projeto Cidadão Ambiental. A parceria SANS, Prefeitura de Laranjal do Jari e Ministério do Meio Ambiente me proporcionou uma experiência maravilhosa e inesquecível.
Abaixo você pode ler o relatório dessa experiência.
Para ver as imagens, clique na foto.
Relatório
Conduzidos pelo Sr. Oceano Atlântico (é verdade, este é o seu nome!), atravessamos com muita alegria e segurança a distância que separa Macapá de Laranjal do Jari. Muito encantamento com paisagens nunca antes vistas ao vivo. A floresta, castanheiras, o cerrado, queimadas. Pontes de madeira sobre os rios, a expectativa da chegada. Como seriam meus jovens companheiros de trabalho?
Após o Tacacá inaugural, já descansados, fomos para o Espaço de Múltiplo Uso, que estava ocupado com uma reunião de emergência. Os "meninos" foram chegando aos poucos. Fomos sendo apresentados ali na varanda, onde a curiosidade deles adiantava perguntas sobre o que iria acontecer na oficina.
Neste primeiro encontro, após as boas vindas das autoridades da cidade, iniciamos um bate-papo para nos conhecermos e falar sobre a oficina. Havia uns trinta participantes no grupo. Fizemos uma dinâmica que provocou mudanças e reflexões sobre a alegria, o prazer, a dificuldade e os desafios elas nos propõem.
Pedi que imaginassem serem capazes de construir o quer que fosse, como se fossem magos, cientistas, inventores. Me surpreendeu que, muitos deles, ao se imaginarem capazes de tal proeza, construiriam casas, para eles mesmos, para os que não têm onde morar. Alguém falou em uma praça, outro em um navio. Houve também a construção de laços de paz e amizade no planeta.
Havia pouquíssima quantidade de sucata para trabalharmos. Pedi que cada um trouxesse algo de casa no dia seguinte. Houve uma proposta de troca de horário em função dos ensaios e da participação dos jovens no festival. Marcamos o início da oficina para as 8 horas da manhã seguinte, no mesmo local.
Enquanto aguardava a chegada da garotada, fui recolhendo pedaços de madeira que sobravam da construção do tapume ao redor da futura praça central da cidade. Peguei também algumas pedrinhas seixos de rio e os meninos fizeram uma coleta nas proximidades de uma caçamba de lixo.
Quando todos chegaram, reunimos o material no meio da sala. Poucos trouxeram contribuições e o que nos salvou foram as pontas de madeira, as garrafas plásticas e os copos do lanche da véspera.
Separamos o material em pequenos montes, a partir de critérios sugeridos por eles: tipo (madeira, plástico, papelão, tecidos) e tamanho.
Cada grupo de três escolheu 6 peças para explorar algumas possibilidades de organização, sem o uso de quaisquer elementos extras de união. Depois das várias experiências, a escolha da que lhes pareceu mais interessante. Uma casa, a companhia de água, uma fábrica, um parque e um centro cultural prenunciavam uma nova cidade. Mas havia muito "lixo" entre aquelas construções. O que faremos com o lixo? Num instante todos se juntaram para retirar da cidade o lixo espalhado, que foi amontoado num canto da sala. Resolvemos assim o problema do lixo? Na verdade a gente apenas levou pra longe, mas o problema lá estava. Vamos reciclar! E num incrível mutirão, foram transformando tudo aquilo em passarelas, árvores, cercas, novos elementos da cidade, que ficou linda e ganhou barco, ônibus, pessoas e até avião.
Ficou claro para mim o quanto aqueles meninos e meninas sonham com uma cidade mais humana, com moradia e trabalho para todos, abastecimento de água, cultura e lazer.
A avaliação deste dia foi muito bonita e emocionante. A começar pelo comentário "achei que ia ser enjoado, mas gostei muito". Eles se divertiram, se surpreenderam com a própria capacidade de criar, com a capacidade de união de todos pra construir algo diferente, transformar lixo em algo tão bonito; com a capacidade de mudar que existe em nós
Neste dia havia uns 15 participantes.
Recebemos a informação de que a partir do dia seguinte a oficina aconteceria na Escola Municipal Raimunda Rodrigues Capiberibe, perto dali.
Enquanto esperávamos o lanche, espalhei os livros sobre a grande mesa e percebi que apesar de pouco familiarizados com o manuseio de livros, eles se interessaram pelos mesmos, fazendo comentários e mostrando uns aos outros.
Lembrei a todos da necessidade de conseguirmos mais material pra trabalhar, mas, na manhã seguinte, só tínhamos mais algumas garrafas e copos.
No terceiro dia havia 9 participantes. À noite fiquei sabendo que muitos não conseguiram ir por falta de transporte e também por terem ido dormir muito tarde. Eles estavam mesmo sobrecarregados com ensaios e apresentações de capoeira, dança, teatro.
A manhã do terceiro dia de oficina começou com a meninada curtindo os livros alguns catálogos de exposições de artistas plásticos que tem o meio ambiente como questão, outros cujas ilustrações são fotos de colagens e assemblages com sucata, livros de educação ambiental. Em seguida, cada um deveria escolher entre 5 e 6 peças, pra explorar as possibilidades de organização, e partir para as soluções de fixação. A tarde saí pela cidade para recolher madeiras, pois nosso material já estava no fim. Consegui uma boa quantidade. Herbert conseguiu caixas e papelões.
Serrar, cortar, pregar, colar. Uma solução para cada "problema". E assim vão surgindo casas, personagens, aviões, caminhões, instrumentos musicais.
No quarto dia, muitos brinquedos já estavam prontos para a pintura e acabamento.
No último dia recebemos a visita de uma meninada do PETI. Entre 6 e 7 anos, foram pouco a pouco se aproximando, entrando na sala pra ver de perto. Como quem não quer nada, foram chegando junto da sucata e bastou um convite para que todos eles se empenhassem com muita concentração na construção de seus brinquedos.
Encerramos a oficina com uma avaliação, onde os participantes comentaram: que foi bom voltar a ser criança, foi bom ver que a gente é capaz de criar, dá vontade de continuar, devia ter mais uma semana, foi bom fazer novas amizades e só foi ruim ter que levantar cedo!

Foi levantada a questão da continuidade do trabalho. Que eles poderiam organizar uma oficina, sendo até mesmo monitores para trabalhar com os menores.
Cinco dias de oficina é apenas um ponto de partida, uma demonstração do que cada um e todos são capazes de criar. Há muito ainda por fazer, aprender a trabalhar com outras ferramentas, descobrir elementos de união, técnicas para dar movimento às peças. Quanto mais se faz, mais se descobre o que ainda é possível ser feito.
Foi bom encerrar a oficina com tantos participantes quanto começamos!
Os trabalhos foram para o estande da SANS, no Festival Nha-Rim. A meninada ficou contente de ver seus trabalhos expostos. Foi muito legal observar as crianças da cidade (e também os adultos) vendo os brinquedos, fazendo elogios e comentários. Espero ter notícias de que a oficina ganhou vida própria. Afinal, a idéia é criar asas, para deixar voar a imaginação!

Herbert Emanuel, Marco Chagas e Christianne Rothier no estande da SANS
Foto de JC Santos - Folha do Amapá